Contada pelo Osho

“Quando Deus criou o mundo, passou a viver nele, no mercado. Mas sua vida estava se tornando um tormento cada vez maior porque as pessoas não paravam de trazer-lhe queixas: a mulher de fulano está doente, o filho de sicrano morreu, beltrano não consegue arrumar emprego - todo os tipos, todas as espécies de queixas.
E as pessoas nem ao menos preocupavam-se se era dia ou noite: vinte e quatro horas por dia, ele ouvia queixas e, naturalmente, já não aguentava mais. Finalmente, consultou seus assessores, que disseram: Em primeiro lugar, foi um erro criar o mundo. Agora, fuja, ou essas pessoas vão matá-lo.

Mas Deus disse. - Fugir para onde?
Alguém sugeriu: Vá para o Everest.
Deus retrucou: Vocês não conhecem o futuro. Conheço o passado, o presente e o futuro. 
Logo um sujeito vai chegar lá. E assim que me vir, o mesmo problema vai aparecer: por toda a parte haverá ônibus,estradas, aeroportos, restaurantes, hotéis... porque as pessoas irão lá para queixar-se de problemas e dificuldades. A mesma coisa vai recomeçar.

Alguém falou: - Então é melhor que você vá para a Lua.
Disse Deus: Vocês não entendem. Não há um único lugar em todo o mundo, onde o homem não consiga chegar algum dia.
Um velho assessor, que costumava falar raramente, segredou ao ouvido de Deus: Sei de um lugar aonde o homem nunca chegará: simplesmente entre dentro dele. Ele vai procurar em toda a parte - mas nunca dentro de si mesmo.

E Deus respondeu: - Isso parece ser sensato.

Desde então, Deus mora dentro de cada um.

O Rei Midas e sábio Sileno

"Reza a antiga lenda que o rei Midas perseguiu o sábio Sileno na floresta, durante longo tempo, sem conseguir apanhá-lo. Quando, por fim, ele veio a cair em suas mãos, perguntou-lhe qual dentre as coisas era a melhor e a mais preferível para o homem. Obstinado e imóvel, calava-se; até que, torturado pelo rei, prorrompeu finalmente, por entre um riso amarelo, nestas palavras: - Estirpe miserável e efêmera, filhos do acaso e do tormento! Por que me obrigas a dizer-te o que seria para ti mais salutar não ouvir? O melhor de tudo é para ti inteiramente inatingível: não ter nascido, não ser, nada ser. Depois disso, porém, o melhor para ti é logo morrer"


(Nietzsche, O nascimento da tragédia).

A água da loucura

Um poderoso feiticeiro querendo destruir um reino, colocou uma poção mágica no poço onde todos os seus habitantes bebiam. Quem tomasse aquela água, ficaria louco.

Na manhã seguinte, a população inteira bebeu, e todos enlouqueceram. O rei – que tinha um poço só para si e sua família, onde o feiticeiro não conseguira entrar – tentou controlar a população. Baixou uma série de medidas de segurança e saúde pública, mas não havia mais policiais ou inspetores, pois eles também haviam bebido a água envenenada.

Quando os habitantes daquele reino tomaram conhecimento dos decretos, ficaram convencidos de que o rei enlouquecera, e agora estava escrevendo coisas sem sentido. Aos gritos, foram até o castelo e exigiram que renunciasse à coroa.

Desesperado, o rei prontificou-se a deixar o trono, mas a rainha o impediu, dizendo: “vamos agora até a fonte, e beberemos também. Assim, ficaremos iguais a eles”.

E assim foi feito: o rei e a rainha beberam a água da loucura, e começaram imediatamente a dizer coisas sem sentido. Na mesma hora, os seus súditos se arrependeram: agora que o rei estava mostrando tanta sabedoria, por que não deixá-lo governando o país?

O país continuou em calma, embora seus habitantes se comportassem de maneira muito diferente de seus vizinhos. E o rei pode governar até o final dos seus dias.

Cada coisa em seu lugar

A festa reuniu todos os discípulos de Nasrudin. Comeram e beberam por muitas horas, e conversaram sobre a origem das estrelas. Quando já era quase madrugada, todos se prepararam para voltarem as suas casas.
Restava um belo prato de doces sobre a mesa: Nasrudin obrigou os seus discípulos a comê-lo.

Um deles, porém, se recusou.

“O mestre está nos testando” disse. “Quer ver se conseguimos controlar nossos desejos”.

“Você está enganado”, respondeu Nasrudin. “A melhor maneira de dominar um desejo, é vê-lo satisfeito. Prefiro que vocês fiquem com o doce no estômago – que é seu verdadeiro lugar – do que no pensamento, que deve ser usado para coisas mais nobres.”

O Quebrador de Pedras

Era uma vez um simples quebrador de pedras que estava insatisfeito consigo mesmo e com sua posição na vida.

Um dia ele passou em frente a uma rica casa de um comerciante. Através do portal aberto, ele viu muitos objetos valiosos e luxuosos e importantes figuras que freqüentavam a mansão.

“Quão poderoso é este mercador!” pensou o quebrador de pedras. Ele ficou muito invejoso disso e desejou que ele pudesse ser como o comerciante.

Para sua grande surpresa ele repentinamente tornou-se o comerciante, usufruindo mais luxos e poder do que ele jamais tinha imaginado, embora fosse invejado e detestado por todos aqueles menos poderosos e ricos do que ele. Um dia um alto oficial do governo passou à sua frente na rua, carregado em uma liteira de seda, acompanhado por submissos atendentes e escoltado por soldados, que batiam gongos para afastar a plebe. Todos, não importa quão ricos, tinham que se curvar à sua passagem.

“Quão poderoso é este oficial!” ele pensou. “Gostaria de poder ser um alto oficial!“

Então ele tornou-se o alto oficial, carregado em sua liteira de seda para qualquer lugar que fosse, temido e odiado pelas pessoas à sua volta. Era um dia de verão quente, e o oficial sentiu-se muito desconfortável na suada liteira de seda. Ele olhou para o Sol. Este fulgia orgulhoso no céu, indiferente pela sua reles presença abaixo.

“Quão poderoso é o Sol!” ele pensou. “Gostaria de ser o Sol!“

Então ele tornou-se o Sol. Brilhando ferozmente, lançando seus raios para a terra sobre tudo e todos, crestando os campos, amaldiçoado pelos fazendeiros e trabalhadores. Mas um dia uma gigantesca nuvem negra ficou entre ele e a terra, e seu calor não mais pôde alcançar o chão e tudo sobre ele.

“Quão poderosa é a nuvem de tempestade!” ele pensou “Gostaria de ser uma nuvem!“

Então ele tornou-se a nuvem, inundando com chuva campos e vilas, causando temor a todos.

Mas repentinamente ele percebeu que estava sendo empurrado para longe com uma força descomunal, e soube que era o vento que fazia isso.

“Quão poderoso é o Vento!” ele pensou. “Gostaria de ser o vento!“

Então ele tornou-se o vento de furacão, soprando as telhas dos telhados das casas, desenraizando árvores, temido e odiado por todas as criaturas na terra. Mas em determinado momento ele encontrou algo que ele não foi capaz de mover nem um milímetro, não importasse o quanto ele soprasse em sua volta, lançando-lhe rajadas de ar. Ele viu que o objeto era uma grande e alta rocha.

“Quão poderosa é a rocha!” ele pensou. “Gostaria de ser uma rocha!“

Então ele tornou-se a rocha. Mais poderoso do que qualquer outra coisa na terra, eterno, inamovível. Mas enquanto ele estava lá, orgulhoso pela sua força, ele ouviu o som de um martelo batendo em um cinzel sobre uma dura superfície, e sentiu a si mesmo sendo despedaçado.

“O que poderia ser mais poderoso do que uma rocha?!?” pensou surpreso.

Ele olhou para baixo de si e viu a figura de um quebrador de pedras.

Talvez

Há um conto Taoísta sobre um velho fazendeiro que trabalhou em seu campo por muitos anos. Um dia seu cavalo fugiu. Ao saber da notícia, seus vizinhos vieram visitá-lo.

“Que má sorte!” eles disseram solidariamente.

“Talvez,” o fazendeiro calmamente replicou. Na manhã seguinte o cavalo retornou, trazendo com ele três outros cavalos selvagens.

“Que maravilhoso!” os vizinhos exclamaram.

“Talvez,” replicou o velho homem. No dia seguinte, seu filho tentou domar um dos cavalos, foi derrubado e quebrou a perna. Os vizinhos novamente vieram para oferecer sua simpatia pela má fortuna.

“Que pena,” disseram.

“Talvez,” respondeu o fazendeiro. No próximo dia, oficiais militares vieram à vila para convocar todos os jovens ao serviço obrigatório no exército, que iria entrar em guerra. Vendo que o filho do velho homem estava com a perna quebrada, eles o dispensaram. Os vizinhos congratularam o fazendeiro pela forma com que as coisas tinham se virado a seu favor.

O velho olhou-os, e com um leve sorriso disse suavemente:

“Talvez.”

O cipreste no jardim

Um monge perguntou ao mestre:

“Qual o significado de Dharma-Buddha?“

O mestre apontou e disse:

“O cipreste no jardim.”


O monge ficou irritado, e disse:

“Não, não! Não use parábolas aludindo a coisas concretas! Quero uma explicação intelectual clara do termo!“

“Então eu não vou usar nada concreto, e serei intelectualmente claro,” disse o mestre. O monge esperou um pouco, e vendo que o mestre não iria continuar fez a mesma pergunta:

“Então? Qual o significado de Dharma-Buddha?”

O mestre apontou e disse:

“O cipreste no jardim.”